[NOTICIAS] CAMPEÃ NOS TATAMES.

[NOTICIAS] CAMPEÃ NOS TATAMES.

PERDENDO A BATALHA FORA DELES


Walter Ramos
(da Equipe Pernambuco Fight Club/GM/NineNine)

A atleta Joaquina Bonfim, umas das maiores representantes do jiu-jítsu em Pernambuco, atravessa uma fase difícil. Diversas vezes campeã estadual, campeã da Copa Nordeste em 2005, Campeã Mundial em 2006, vice-campeã e terceira colocada (na categoria e no absoluto) do Mundial em 2008, Campeã Pan-Americana no mesmo ano, esteve no lugar mais alto do pódio em várias outras competições ao longo da sua trajetória. Com o joelho esquerdo lesionado desde maio de 2006, necessita de uma cirurgia para reconstituir o tendão e também tratar o menisco.

Por depender só e exclusivamente do nosso SUS (Sistema Único de Saúde) a cidadã brasileira tem peregrinado com a fibra de uma verdadeira guerreira há completos três anos e meio, visando “finalizar” o problema. Já esteve diversas vezes nos hospitais Getúlio Vargas, HC – Hospital das Clínicas, Oscar Coutinho, ambos em Recife e procurou a Secretaria de Saúde do Município vizinho, Jaboatão dos Guararapes. Logo, transitou nas esferas estadual, federal e em mais de uma instância municipal de saúde.

Logrou êxito parcial em algumas tentativas, no ano de 2007, fazendo exames para obter o diagnóstico preciso e para confirmação do problema, obtendo laudo médico, chegando até a fazer exames complementares. Mas o prazo de validade dos exames se extinguiu em pouco tempo, sem que a cirurgia fosse realizada (vemos tal morosidade ocorrer diariamente nos noticiários em diversas localidades do Brasil). Resultado: de volta à estaca zero. De 2007 até hoje, Joaquina conseguiu consultar-se com um médico, chegando a mostrar os exames desatualizados… Desde então tenta insistentemente obter fichas, madrugando em diversas unidades de ortopedia e traumatologia a fim de marcar exames preliminares para em seguida alcançar a graça da cirurgia necessária. O que mais parece um sonho distante.

Algo de muito bizarro ocorre no sistema público de saúde brasileiro, e não é de hoje, bem sabemos. Há centenas de milhares de casos muito mais graves espalhados pelo Brasil. Os jornais denunciam diariamente o descaso. Sim, todos reconhecemos que tem sido assim há anos. Triste é também constatar a larga desvantagem experimentada por uma atleta como Joaquina. Ela tendo passado tanto tempo longe da sua forma ideal, tendo treinado dentro de limitações enormes, enfrentando dores, rendendo muito abaixo do que realmente pode (sem patrocínio e apenas com a ajuda de amigos para que viajasse até o Rio de Janeiro, São Paulo e Bahia) foi capaz de realizar a façanha de conquistar em competições importantes, títulos como o campeonato mundial e o pan-americano, demonstrando a garra e a determinação que possui. Orgulho das artes marciais em Pernambuco, do jiu-jítsu em particular, não conseguir “passar a guarda” da burocracia e da falta de respeito que rege este país é algo lamentável. Como o é saber que Joaquina, igual a tantos outros guerreiros e guerreiras do povo brasileiro, padece deste mal; das maiores vergonhas nacionais: o mau atendimento e o entrave desumano nas filas do SUS.

Resta aqui sensibilizar os praticantes de jiu-jítsu e amantes do desporto em geral. Sabemos que na próxima década talvez este país “respire” esportes. Os dois maiores eventos desportivos do planeta terão vez aqui… Mas e hoje? O que fazer senão tratar os exemplos bem sucedidos? Já dizia o sábio: “o exemplo arrasta”. Espero que um médico cirurgião ortopedista, sensível à dignidade humana, que compreenda o desporto como fator de inclusão na cadeia virtuosa da cidadania, possa ler esta mensagem lançada no oceano da internet. Fico confiante na rede solidária que perpassa o jiu-jítsu, um dos esportes mais populares no Brasil. Ao contrário do que muita gente pensa, não é apenas um esporte individual onde um sujeito e seu adversário resolvem uma contenda arbitrada numa área de luta. É um esporte de multidões. Equipes se preparam juntas e competem entre si. Quem sabe a forte rede solidária possa colaborar com a solução deste “pequeno” problema “burocrático”. Para que Joaquina Bonfim – diante de todas as conquistas já notadas pela atleta que é – supercampeã em perseverança – não seja obrigada a encerrar a sua carreira precocemente no auge da sua faixa marrom, por padecer de uma lesão no joelho.

Espero um dia contrariarmos a melancólica conclusão de que a atleta, igual a tantos do nosso povo, em verdade não padece de uma lesão ortopédica. Ela padece é do desmando generalizado… Padece do caos deliberado. Ela padece é de Brasil.

Solidariedade! Atividade!Sugestões, colaborações, contato:

Ossss

 

lutarporsolucao@gmail.com

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