
O lutador Japonês de MMA Baret Yoshida e sua deformidade permanente (orelha de couve-flor)
Por Leandro Paiva, colaborador especial do blog e autor do livro Pronto Pra Guerra:
Em outro artigo neste Blog, ressaltei sobre a possibilidade de uma nova técnica emergencial aplicada em atletas de elite de MMA, em que os autores relataram sucesso em 100% dos pacientes tratados, evitando deformidades permanentes na orelha. Decidi me aprofundar novamente sobre o tema, com intuito de esclarecimentos complementares ao artigo anterior.
Vou concentrar as informações em 3 aspectos: 1) Explicar melhor as causas da deformidade; 2) Informar sobre a prevalência em atletas de Luta Olímpica e Jiu-Jítsu; 3) Elucidar sobre a hipótese de a “orelha de couve-flor” diminuir a audição.
Em referência ao primeiro aspecto: a situação inicial decorre em função de trauma no pavilhão auricular (orelha externa) e, por isso, é denomidado comumente na literatura médico-científica de Hematoma Auricular (Safran et al., 2002).
O hematoma localiza-se sob o pericôndrio (camada de tecido conjuntivo ao redor da cartilagem da orelha), separando-o da cartilagem. Em lutadores, é comum a inflamação do pericôndrio em função do trauma, sendo denominado de Pericondrite, no qual, geralmente, causa acúmulo de pús entre essa camada de tecido e a cartilagem da orelha.
Em suma, o pericôndrio é responsável pela “nutrição” da cartilagem e um processo inflamatório nesse nível pode conduzir à necrose por falta ou diminuição de suprimento sanguíneo, ocasionando reação fibrosa severa (formação de “nova” cartilagem) e posterior deformidade permanente do pavilhão auricular, conhecida popularmente como orelha de couve-flor.
Quanto ao segundo aspecto, ou seja, prevalência da deformidade entre atletas de Luta Olímpica e Jiu-Jítsu, foi observado que, aproximadamente, 40% dos atletas de Luta Olímpica apresentavam a deformidade (Safran et al., 2002) enquanto que, entre os lutadores de Jiu-Jítsu, esse índice caia para 30% (Viveiros et al., 2006).
Nos atletas de Luta Olímpica, o trauma que originava o hematoma era relacionado principalmente às técnicas de projeção, enquanto que no Jiu-Jítsu, não é associado a nenhuma técnica em particular, mas sim das próprias características de constante contato corporal da modalidade (Ide & Padilha, 2005).
Quanto à hipótese de a orelha de couve-flor diminuir a audição, foi realizado um estudo no qual foram avaliados 20 praticantes de Jiu-Jítsu. Foi verificado que 25% dos lutadores tinham dificuldades para ouvir ao telefone, 20% tinham dificuldades para ouvir sons, 20% relataram dificuldades para ouvir rádio ou televisão, 35% apresentaram zumbido e 30%, tontura.
Todos apresentaram resultados da avaliação audiológica dentro dos padrões de normalidade. Os autores concluíram que os golpes e as pancadas na região da cabeça podem provocar zumbido, tontura e deformidades de pavilhão auricular; entretanto não alteram a audição.
Leandro Paiva é professor de educação física e autor do livro Pronto Pra Guerra. Já auxiliou na preparação de atletas de ponta como Ricardo Arona e Bibiano Fernandes. Ele colabora com este blog semanalmente. Leia outros textos dele aqui. Para saber mais sobre o autor e o livro entre emhttp://www.prontopraguerra.com.br/